
Existe uma cena em Matrix que não consigo tirar da cabeça.
Neo acaba de descobrir que tudo o que conhecia era uma simulação. Morpheus o leva para um programa de treinamento, um terraço entre dois prédios, e pede que ele salte. Antes do salto, diz uma única coisa: free your mind. Liberte a sua mente.

Neo corre, pula e despenca no asfalto.
Quando sai do programa de treinamento do computador, sente gosto de sangue na boca. Pergunta como aquilo é possível, se nada ali era real. Morpheus responde que é a mente que torna real.
Tem um detalhe nessa cena que quase passa despercebido. Enquanto Neo se recupera, alguém da tripulação comenta que todo mundo cai na primeira vez.
Todo mundo.
O escolhido, o homem que vai salvar a humanidade, começa a jornada estatelado no chão. E foi justamente aí que eu passei a gostar dele.
Um herói que acerta de primeira é admirável, mas distante. A gente aplaude, mas não se reconhece nele. O Neo que cai é outra coisa. É a gente na primeira tentativa de qualquer coisa que importa. A queda não diminui o respeito por ele. É ela que nos faz acreditar que, se ele levantou, talvez a gente também consiga.
Ainda bem que ele caiu.
Por muito tempo achei que essa cena falava de poder. Hoje acho que ela fala de dor.
