
Tenho um currículo que nunca mandei para ninguém. Nele constam um curso de mágica, um curso de tráfego pago, uma temporada vendendo perfumante bucal, outra vendendo milhas e uma passagem breve, e pouco gloriosa, pelo ramo do chá emagrecedor.
Se fosse um currículo de verdade, o recrutador concluiria que eu não sei o que quero da vida. Talvez tivesse razão.
Sou servidor público. Tenho salário certo no fim do mês e aquela estabilidade que muita gente inveja. Mesmo assim, sempre quis uma renda extra. Não por luxo, mas por uma inquietação difícil de explicar: a sensação de que havia algo meu, um jeito próprio de fazer as coisas, que não cabia inteiro no expediente.
O curioso é que o maior obstáculo nunca foi dinheiro, tempo ou falta de ideia. Foi uma pergunta que eu me fazia em silêncio antes de cada tentativa: o que vão pensar quando isso não der certo?
