Outro dia, parei numa rotatória esperando o espaço certo para entrar. Nada de especial. É o tipo de momento que a gente vive no automático.
Mas, enquanto esperava, percebi algo estranho: eu ficava olhando pelo retrovisor, mais do que qualquer situação no trânsito exigia.
Não era para checar os carros. Era como se eu precisasse de permissão para avançar.
"Será que já estou fazendo alguém esperar?" Foi o pensamento que me pegou de surpresa. No momento, parece até natural, um reflexo de cuidado, de educação no trânsito.
Mas aquele olhar compulsivo não estava me ajudando. Só me deixava mais tenso.
Se não era sobre dirigir bem, então era sobre o quê?

Não é medo de errar. É medo de acertar demais.
Eu não tinha medo de errar a manobra. Tinha medo de incomodar alguém que, na maioria das vezes, nem estava ali.
E entrar bem na rotatória significa ocupar um espaço. É aí que mora o incômodo.
Errar, a gente sabe lidar. O difícil é quando avançar bem faz você se destacar num lugar onde todo mundo hesita.
A psicóloga Matina Horner deu um nome para isso nos anos 70, estudando universitárias: fear of success, o medo do sucesso. É o receio de que acertar custe caro em rejeição, inveja e isolamento. É como puxar um freio de mão emocional. Não para o carro de vez, só desacelera, sem você perceber que a mão está ali.
